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O Paradoxo de Anita Malfatti. Por que rejeitamos aquilo que dizemos querer?

  • 22 de jul.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 1 de ago.

Por Marcelo Bevilacqua* 


Em dezembro de 1917, uma jovem artista retornava ao Brasil após um período de estudos na Alemanha e nos Estados Unidos. Sua formação havia sido marcada pelo contato com movimentos artísticos que estavam transformando a forma de representar o mundo. O que ela trouxe na bagagem não eram apenas pinturas. Eram novas formas de olhar.


O Paradoxo de Anita Malfatti. Por que rejeitamos aquilo que dizemos querer?

Ao apresentar suas obras em São Paulo, Anita Malfatti encontrou algo diferente da curiosidade que talvez esperasse despertar. Encontrou resistência. As figuras pareciam distorcidas. As cores eram intensas. As proporções desafiavam os padrões acadêmicos que dominavam a arte brasileira da época. Para muitos observadores, aquilo não representava evolução. Representava erro. A reação foi imediata. Críticas severas surgiram nos jornais, intelectuais questionaram a qualidade de seu trabalho e parte do público encarou aquelas pinturas como uma afronta aos critérios que definiam o que era considerado arte.


Hoje, mais de um século depois, a história parece ter emitido seu veredito. Anita Malfatti é reconhecida como uma das precursoras do modernismo brasileiro. Sua exposição tornou-se um dos acontecimentos que antecederam a Semana de Arte Moderna de 1922, marco fundamental da renovação cultural do país.


Mas talvez a questão mais interessante não seja artística. Talvez a verdadeira pergunta seja outra. Como uma sociedade que afirmava valorizar cultura, talento e progresso foi capaz de rejeitar uma das artistas que mais contribuiria para transformar sua produção cultural? A resposta pode revelar algo importante sobre a forma como indivíduos, organizações e sociedades lidam com aquilo que ainda não compreendem. Porque o episódio de Anita Malfatti não pertence apenas à história da arte. Ele pertence à história da percepção humana.


Existe um padrão recorrente na maneira como avaliamos ideias, pessoas e transformações. Costumamos imaginar que julgamos o mérito das coisas de forma objetiva. Acreditamos que reconhecemos qualidade quando ela aparece diante de nós. No entanto, a experiência mostra algo diferente.


Frequentemente avaliamos o novo utilizando critérios criados para medir o velho. É justamente aí que surge o paradoxo. Dizemos desejar inovação, mas nos sentimos confortáveis com a familiaridade. Dizemos valorizar a criatividade, mas preferimos aquilo que confirma nossas expectativas. Dizemos admirar pioneiros, mas raramente percebemos que estamos diante de um deles enquanto sua contribuição ainda está sendo construída. O problema não está necessariamente na novidade. Está no fato de que ela rompe referências que utilizávamos para interpretar a realidade.


Em 1917, a discussão sobre Anita Malfatti parecia ser uma discussão sobre pintura. Na prática, era uma discussão sobre modelos mentais.


Suas obras não se encaixavam nos padrões conhecidos. E quando algo não se encaixa, a primeira reação humana costuma ser classificá-lo como inadequado, não como promissor. Esse mecanismo não desapareceu com o tempo. Ele apenas mudou de ambiente. Nas organizações, o fenômeno continua presente.


Empresas afirmam buscar inovação, mas frequentemente estruturam seus processos para premiar previsibilidade. Defendem transformação, mas valorizam apenas ideias que se parecem com aquelas que já funcionaram anteriormente. Falam sobre pensamento disruptivo, mas recompensam comportamentos conformistas. Buscam profissionais capazes de desafiar o status quo, mas se sentem mais confortáveis com aqueles que o preservam. O resultado é que muitas vezes não rejeitamos uma ideia porque ela é ruim. Rejeitamos porque ela desafia os critérios que utilizamos para determinar o que consideramos bom.


A inovação genuína carrega um problema peculiar: ela não possui histórico. Não possui consenso. Não possui validação social. E justamente por isso costuma parecer arriscada, desconfortável ou inadequada. Talvez por essa razão tantas transformações importantes tenham sido inicialmente recebidas com desconfiança.


A história está repleta de conceitos, tecnologias, descobertas e movimentos que foram considerados absurdos antes de se tornarem evidentes. O futuro raramente chega com aparência de futuro. Na maioria das vezes, ele chega parecendo um defeito.


Existe uma competência que diferencia líderes, organizações e sociedades capazes de evoluir. Ela não consiste apenas em identificar tendências. Consiste em reconhecer potencial antes que exista consenso. Perceber valor quando ele ainda é imperfeito. Enxergar possibilidades onde outros veem apenas inadequação.


A Semana de Arte Moderna de 1922 não surgiu do nada. Ela foi consequência de um processo anterior. Foi resultado de inquietações, experimentações e enfrentamentos que já vinham acontecendo. Entre eles, a exposição de Anita Malfatti ocupa o lugar central.


O que em 1917 parecia exagero ou ruptura excessiva tornou-se, poucos anos depois, uma das bases da renovação artística brasileira. A história acabou reconhecendo Anita Malfatti. Mas a história possui uma vantagem que nós não temos. Ela sempre olha para os fatos depois que eles aconteceram, líderes, organizações e sociedades precisam decidir antes. Precisam interpretar antes, precisam enxergar antes.


Talvez a pergunta mais importante não seja por que Anita Malfatti foi rejeitada em 1917. Talvez a pergunta seja outra.


Quantas ideias, profissionais, projetos ou transformações continuam sendo descartados hoje simplesmente porque ainda não se encaixam nos critérios que utilizamos para reconhecer valor?


Quantas "Anitas Malfatti" passam diariamente por salas de reunião, processos seletivos, conselhos de administração e mesas de decisão sem serem percebidas?


Nem toda crítica está errada, nem toda novidade merece ser celebrada. Mas toda sociedade, toda organização e todo líder precisa tomar cuidado para não confundir desconforto com falta de valor. Porque algumas das ideias que mais transformam o mundo possuem uma característica curiosa.


Quando surgem, raramente parecem uma solução, frequentemente parecem um problema, e é exatamente por isso que passam despercebidas, ou são rejeitadas. Até que o tempo revele aquilo que nossos modelos mentais ainda não eram capazes de enxergar.


Nem sempre rejeitamos o que é ruim. Às vezes, rejeitamos aquilo que chegou cedo demais para os nossos critérios de avaliação.



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Nota do autor: Anita Malfatti (1889–1964) foi uma pintora brasileira reconhecida como uma das precursoras do Modernismo no Brasil. Sua exposição realizada em São Paulo, em 1917, tornou-se um marco da história da arte nacional e ajudou a pavimentar o caminho para a Semana de Arte Moderna de 1922. Aos leitores que desejarem conhecer mais sobre sua trajetória, obras e legado, recomendo a leitura de sua biografia na Wikipédia e em outras fontes dedicadas à história da arte brasileira.



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Marcelo Bevilacqua

*Marcelo Bevilacqua, Administrador de Empresas, MBA em Gestão de Estratégica de Negócios e Pós Graduado em Psicologia do Consumidor. Atua há mais de 20 anos como Consultor em Marketing Finance Business a frente da Atuar Consultoria e Marketing.

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