O Efeito Peruá: por que algumas pessoas não se transformam quando a mudança chega
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Atualizado: há 28 minutos
Por Marcelo Bevilacqua*
Recentemente, durante uma conversa informal, uma tigela de pipoca ocupava discretamente um espaço sobre a mesa. Entre os grãos estourados, alguns permaneciam intactos. Os conhecidos peruás.
Ao notar um deles, Dejoar fez uma observação simples:
— É curioso. Alguns simplesmente não estouram.
Em seguida, completou:
— E a mesma coisa acontece com as pessoas.

A frase parecia apenas um comentário casual. Daqueles que surgem sem pretensão durante uma conversa qualquer. No entanto, quanto mais se pensa sobre ela, mais difícil se torna ignorar a profundidade da metáfora.
Todos os grãos foram colocados na mesma panela.
Todos receberam calor.
Todos foram submetidos às mesmas condições.
Ainda assim, alguns se transformaram completamente, enquanto outros permaneceram exatamente como eram. A imagem é simples, mas talvez explique um dos fenômenos mais recorrentes da vida profissional, das organizações e das relações humanas.
Existe uma crença amplamente difundida de que o crescimento depende essencialmente das oportunidades disponíveis. Se houver treinamento, as pessoas evoluem. Se houver investimento, os resultados aparecem. Se houver acesso ao conhecimento, a transformação acontece. A lógica parece correta, mas a realidade costuma apresentar um cenário mais complexo.
Ao longo da vida, todos encontramos pessoas que receberam excelentes oportunidades e permaneceram praticamente no mesmo lugar. Da mesma forma, encontramos indivíduos que, mesmo diante de recursos limitados, conseguiram construir trajetórias admiráveis.
Isso não significa que oportunidades sejam irrelevantes, pelo contrário, elas são fundamentais. O ponto é que oportunidades criam possibilidades. Transformação exige decisão, e é justamente nessa diferença que muitas vezes reside a distância entre aqueles que evoluem e aqueles que permanecem estagnados.
Toda mudança possui um custo, e aprender algo novo frequentemente exige abandonar uma forma antiga de pensar. Crescer profissionalmente demanda abrir mão de determinados confortos. Assumir novas responsabilidades exige deixar para trás hábitos que funcionavam em etapas anteriores da carreira. Inovar implica aceitar a possibilidade do erro, da exposição e da incerteza. Por isso, mudar raramente é apenas um processo de aquisição.
Na maioria das vezes, é também um processo de renúncia. Talvez essa seja uma das razões pelas quais tantas pessoas desejam os benefícios da transformação, mas resistem ao caminho necessário para alcançá-la.
Querem os resultados sem o desconforto.
Querem a evolução sem a adaptação.
Querem o crescimento sem revisar crenças, hábitos e comportamentos.
O problema é que a transformação não acontece apenas quando algo novo é incorporado. Ela acontece quando algo antigo deixa de ocupar espaço. Talvez o exemplo mais evidente do efeito peruá não esteja nas organizações. Está nas pessoas.
Todos conhecemos alguém que frequenta cursos há anos, acompanha conteúdos sobre liderança, produtividade e desenvolvimento pessoal, mas continua enfrentando os mesmos problemas. Não por falta de conhecimento. Mas porque conhecimento não gera transformação automaticamente. Algumas pessoas utilizam o aprendizado para revisar crenças, mudar hábitos e reconstruir comportamentos. Outras utilizam o mesmo aprendizado apenas para reforçar aquilo em que já acreditavam.
A diferença parece pequena, mas é ela que separa crescimento de repetição, afinal, o que impede a evolução raramente é a ausência de informação. Na maioria das vezes, é a resistência em abandonar versões antigas de si mesmo. Talvez seja por isso que alguns profissionais avancem com velocidade diante das mudanças, enquanto outros permanecem presos aos mesmos padrões durante anos.
Ambos tiveram acesso ao conhecimento.
Ambos receberam estímulos para evoluir.
Ambos perceberam que o mundo mudou.
Mas apenas um deles aceitou mudar junto.
E talvez essa seja uma das características mais marcantes da maturidade profissional. Não a capacidade de aprender continuamente. Mas a capacidade de desaprender aquilo que já não funciona.
Porque existe uma diferença importante entre acumular conhecimento e permitir que esse conhecimento transforme comportamentos. O primeiro amplia repertório, o segundo muda destinos.
Essa reflexão torna-se ainda mais relevante em uma época marcada por excesso de informação. Nunca tivemos acesso a tantos conteúdos, cursos, especialistas, livros, mentorias e ferramentas. Ainda assim, a sensação de estagnação continua presente para muitas pessoas. Talvez porque a informação seja abundante. Transformação, não.
A transformação continua exigindo aquilo que sempre exigiu: disposição para enfrentar desconfortos, rever certezas e abandonar práticas que deixaram de fazer sentido. E esse é um processo que nenhuma tecnologia pode realizar por nós. Por isso, talvez a pergunta mais importante para indivíduos, equipes e organizações não seja o que ainda precisam aprender. Talvez a pergunta correta seja outra. O que precisa ser deixado para trás?
Quais hábitos continuam ocupando espaço que deveria pertencer ao novo?
Quais crenças ainda são defendidas apenas porque são familiares?
Quais comportamentos permanecem sendo repetidos mesmo quando já não produzem os resultados desejados?
Quais justificativas continuam sendo utilizadas para explicar uma realidade que já deveria ter sido transformada?
Toda evolução exige uma escolha, e toda escolha implica renúncia.
Anos de mercado ensinam que negócios são feitos por pessoas, e pessoas são movidas por escolhas. Talvez seja por isso que a observação de Dejoar, executivo do setor imobiliário, transcenda o contexto em que foi feita:
"Nenhum peruá acredita que ficou para trás. Ele apenas acredita que não precisava mudar."
Mais do que uma frase sobre um grão de milho que não estourou, trata-se de uma reflexão sobre a forma como indivíduos e organizações lidam com a transformação quando ela finalmente chega.
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*Marcelo Bevilacqua, Administrador de Empresas, MBA em Gestão de Estratégica de Negócios e Pós Graduado em Psicologia do Consumidor. Atua há mais de 20 anos como Consultor em Marketing Finance Business a frente da Atuar Consultoria e Marketing.






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