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O mito de Sísifo e a inteligência executiva: A diferença entre persistir e insistir

  • há 16 minutos
  • 5 min de leitura

Por Marcelo Bevilacqua* 


Algumas histórias atravessam os séculos porque falam menos sobre o passado do que sobre a natureza humana. Mudam-se os contextos, as tecnologias, as formas de organização social e econômica, mas determinados comportamentos continuam surpreendentemente familiares. O mito de Sísifo pertence a essa categoria.



Na mitologia grega, Sísifo era um rei conhecido por sua inteligência, astúcia e capacidade de desafiar limites. Como punição por suas transgressões, foi condenado pelos deuses a uma tarefa aparentemente simples, mas profundamente cruel: empurrar uma enorme pedra até o topo de uma montanha. Sempre que estava prestes a concluir o esforço, a pedra rolava de volta para a base. Então ele precisava recomeçar. E recomeçar. E recomeçar. Para sempre.


Durante séculos, a narrativa foi interpretada como uma representação da inutilidade do esforço humano. Um símbolo do trabalho sem recompensa, da repetição exaustiva e da ausência de propósito. Mas no século XX, o filósofo Albert Camus propôs uma leitura diferente. Em vez de concentrar sua atenção na punição, Camus voltou-se para o homem que a suportava. Sua pergunta não era por que Sísifo havia sido condenado. Sua pergunta era mais inquietante.


O que acontece quando alguém compreende plenamente sua condição?


Como viver quando percebemos que não existe uma chegada definitiva?


Ao final de seu ensaio, Camus apresenta uma das frases mais provocativas da filosofia moderna:

“É preciso imaginar Sísifo feliz.”


A frase causa estranhamento porque confronta uma das crenças mais profundas da experiência humana, a ideia de que a felicidade está sempre localizada em algum ponto futuro.


Quando eu conquistar.


Quando eu resolver.


Quando eu alcançar.


Quando eu chegar.


Talvez seja justamente essa crença que o mito de Sísifo coloca em xeque. Desde cedo somos educados para perseguir chegadas.


A conclusão dos estudos.


A promoção profissional.


A aquisição de patrimônio.


O reconhecimento social.


A aposentadoria.


A estabilidade.


Em diferentes fases da vida, imaginamos que existe um ponto adiante capaz de encerrar nossas preocupações e consolidar definitivamente nossas conquistas. A realidade, no entanto, costuma seguir outro caminho.


O estudante conclui uma etapa e inicia outra.


O profissional alcança um cargo e recebe novas responsabilidades.


O empreendedor supera um desafio e encontra um novo.


Os filhos crescem, os pais envelhecem, os mercados mudam, as prioridades se transformam. A pedra nunca desaparece, ela apenas assume novas formas. Talvez por isso tantas pessoas experimentem uma sensação silenciosa de frustração após atingir objetivos que perseguiram durante anos. Não porque a conquista tenha sido pequena. Mas porque ela revelou algo que preferíamos não enxergar.


A montanha não terminou, existe outra logo adiante. Essa percepção ajuda a compreender uma distinção importante entre persistência e insistência. À primeira vista, ambas parecem semelhantes. Em muitos casos, inclusive, são confundidas e até celebradas da mesma forma. Mas existe uma diferença fundamental. Persistir é manter o compromisso com um propósito, insistir é manter o compromisso com um caminho.


A persistência é orientada pelo sentido.


A insistência é orientada pelo apego.


Quem persiste continua aprendendo.


Quem insiste continua repetindo.


Quem persiste adapta estratégias.


Quem insiste protege convicções.


Quem persiste mantém os olhos no objetivo.


Quem insiste fixa o olhar apenas no método.


Essa diferença raramente se torna evidente durante os períodos de estabilidade. Ela emerge quando a realidade passa a contradizer nossas expectativas. É nesse momento que algumas pessoas ajustam rotas, revisam premissas e reformulam escolhas. Outras apenas aumentam a força com que empurram a mesma pedra.


Existe uma crença muito valorizada em nossa cultura atual, a ideia de que desistir é sempre um sinal de fraqueza.


Não é.


Existem situações em que desistir representa covardia, mas existem outras em que desistir representa lucidez.


Abandonar uma estratégia equivocada não é fracassar, reconhecer um erro não é perder. Mudar de direção não significa falta de determinação. Frequentemente, exige mais coragem do que permanecer. O problema é que o ego costuma se apresentar disfarçado de perseverança. Continuamos investindo tempo em projetos inviáveis porque já investimos demais. Mantemos relacionamentos esgotados porque resistimos a admitir a realidade. Defendemos convicções ultrapassadas porque construímos nossa identidade ao redor delas. Persistimos não porque existe sentido e persistimos porque abandonar passou a ferir nossa imagem sobre nós mesmos. Nesse momento, a virtude da perseverança se transforma silenciosamente na armadilha da insistência. É aqui que surge aquilo que podemos chamar de inteligência executiva, não como uma competência restrita aos líderes ou às organizações, mas como uma capacidade humana.


A capacidade de interpretar a realidade sem se tornar prisioneiro das próprias crenças. A capacidade de reconhecer quando a continuidade produz crescimento e quando produz apenas desgaste. A capacidade de distinguir resiliência de teimosia. Essa talvez seja uma das formas mais sofisticadas de inteligência. Porque exige algo que raramente é confortável: revisar aquilo que acreditávamos ser verdade.


A história está repleta de pessoas extremamente determinadas que fracassaram não por falta de esforço, mas por excesso de apego. Da mesma forma, muitas das grandes transformações humanas nasceram da coragem de abandonar caminhos que já não faziam sentido.

Nem toda pedra merece ser empurrada.


Nem toda montanha merece ser escalada.


As organizações apenas amplificam esse comportamento.


Empresas não desenvolvem insistências, pessoas desenvolvem.


Empresas não se apegam a estratégias ultrapassadas, pessoas se apegam.


Empresas não ignoram sinais de mudança, pessoas ignoram.


Por trás de produtos que perderam relevância, modelos de negócio ultrapassados, estruturas burocráticas e decisões equivocadas, quase sempre encontramos indivíduos confundindo persistência com insistência. O mesmo padrão que aparece na vida pessoal reaparece nos ambientes corporativos, a diferença é apenas a escala.


Talvez a maior armadilha não esteja na pedra, nem na montanha. Nem mesmo no esforço necessário para continuar subindo. Talvez a armadilha esteja na crença silenciosa de que existe um topo capaz de encerrar definitivamente a caminhada.


Ao longo da vida, mudamos de emprego, de cidade, de posição social, de patrimônio, de responsabilidades e de objetivos. Cada conquista parece anunciar uma chegada. Cada chegada, no entanto, revela apenas o início de uma nova subida. É por isso que o mito de Sísifo continua tão atual. Não porque fala de sofrimento, mas porque fala de expectativa.


A expectativa de que um dia não haverá mais problemas para resolver, decisões para tomar, relações para construir ou desafios para enfrentar. Essa promessa nunca se cumpre.


A pedra muda.


A montanha muda.


Nós mudamos.


Mas a subida permanece.


Talvez seja justamente nesse ponto que a inteligência executiva encontra sua forma mais madura. Não na capacidade de suportar qualquer peso indefinidamente, mas na lucidez para compreender que a vida não é uma sequência de chegadas. É uma sucessão de jornadas.


Camus nos convida a imaginar Sísifo feliz porque ele finalmente compreendeu aquilo que muitos de nós passamos a vida inteira tentando negar: o sentido não está no topo da montanha.

Está na forma como escolhemos fazer a subida.


No fim, a verdadeira sabedoria não consiste em encontrar uma pedra que nunca volte a cair. Consiste em reconhecer, com serenidade, qual pedra vale a pena continuar empurrando.


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*Marcelo Bevilacqua, Administrador de Empresas, MBA em Gestão de Estratégica de Negócios e Pós Graduado em Psicologia do Consumidor. Atua há mais de 20 anos como Consultor em Marketing Finance Business a frente da Atuar Consultoria e Marketing.

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