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No caminho, com Maiakóvski: entre perceber o sinal e decidir agir

  • há 3 dias
  • 5 min de leitura

Por Marcelo Bevilacqua*



Alguns poemas não permanecem vivos apenas pela estética. Permanecem porque capturam um padrão humano que se repete ao longo do tempo. Eles atravessam décadas e continuam atuais porque descrevem comportamentos que não mudam com facilidade. O poema “No caminho, com Maiakóvski”, de Eduardo Alves da Costa, pertence a essa categoria. Não é apenas um texto literário. É uma observação precisa sobre a forma como indivíduos e sociedades lidam com sinais que anunciam mudanças antes que elas se tornem inevitáveis.


A força do poema está justamente na maneira como ele expõe a progressão silenciosa da omissão. O que começa como um pequeno gesto tolerado evolui, passo a passo, até se transformar em uma perda irreversível. Não há explosão súbita, não há um evento dramático isolado. O que existe é uma sequência de acontecimentos que se acumulam enquanto ninguém decide interromper o processo.


O trecho mais conhecido do poema traduz essa dinâmica com clareza:


“Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim.E não dizemos nada.Na segunda noite, já não se escondem: pisam as flores, matam nosso cão,e não dizemos nada.Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz,e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta.E já não podemos dizer nada.”


A sequência é simples e brutal ao mesmo tempo. O primeiro gesto é pequeno. Uma flor retirada do jardim. Algo aparentemente insignificante. Nada que justifique um confronto imediato. O silêncio parece razoável.


Mas o silêncio tem consequências.


Na noite seguinte o comportamento muda. Já não há necessidade de esconder-se. As flores são pisadas. O cão é morto. Ainda assim, permanece o silêncio.


O ponto mais perturbador aparece no final. Quando o invasor já conhece o medo da casa, quando já compreendeu que não haverá reação, ele entra sozinho e toma aquilo que antes parecia impossível tomar, a luz e a voz.


Nesse momento já não existe escolha. A possibilidade de reação foi perdida ao longo do caminho.


Essa lógica não pertence apenas à literatura. Ela aparece com frequência desconcertante na vida real, especialmente no ambiente das organizações.


Empresas raramente entram em crise de forma repentina. O colapso quase nunca nasce de um único evento isolado. O que geralmente acontece é uma sequência de sinais que surgem gradualmente e que, em algum momento, poderiam ter sido interpretados como alertas.

Um cliente estratégico começa a demonstrar insatisfação.


Um produto deixa de evoluir na mesma velocidade que o mercado.


Uma área da empresa passa a operar desconectada das demais.


Indicadores começam a revelar pequenas distorções que parecem administráveis.


Nada disso, isoladamente, parece suficiente para provocar uma reação contundente. Assim como no poema, o primeiro sinal parece pequeno demais para justificar uma intervenção imediata.


É nesse ponto que surge a diferença entre perceber e agir.


Perceber exige atenção. Agir exige decisão.


Muitas organizações desenvolvem uma boa capacidade de observação. Relatórios são produzidos, dados são analisados, indicadores são acompanhados com precisão crescente. O problema raramente está na ausência de informação.


O problema está na atitude diante da informação.


Entre reconhecer um sinal e decidir intervir existe um intervalo delicado. Nesse intervalo surgem justificativas, ponderações, tentativas de explicar por que talvez ainda não seja o momento adequado para agir.


É um mecanismo silencioso, mas poderoso.


Primeiro aparece o argumento de que o problema ainda é pequeno. Depois surge a esperança de que a situação se resolva naturalmente. Em seguida aparece a percepção de que talvez seja melhor aguardar mais um ciclo antes de alterar o rumo.


Quando finalmente se reconhece que algo precisa ser feito, a situação já mudou de escala.

O que antes era um ajuste simples passa a exigir uma transformação estrutural.


Esse é o momento em que muitas organizações descobrem que perderam a vantagem mais importante que poderiam ter tido, o tempo.


O tempo é o principal aliado de quem decide agir cedo. Quando um sinal é interpretado enquanto ainda é pequeno, as respostas podem ser proporcionais. Pequenos ajustes estratégicos, correções de processo ou mudanças pontuais de direção podem recolocar o sistema em equilíbrio.


Mas quando o tempo passa sem que essas decisões sejam tomadas, os sinais deixam de ser sinais. Tornam-se problemas.


E problemas tendem a se conectar uns aos outros.


Um desalinhamento estratégico gera pressão comercial. A pressão comercial provoca decisões operacionais precipitadas. As decisões operacionais começam a comprometer a experiência do cliente. O impacto no cliente retroalimenta a pressão estratégica.


O sistema inteiro começa a girar em torno de uma tensão crescente.


Nesse estágio, a reação já não é simples. Ela exige mais energia, mais recursos e muitas vezes mudanças muito mais profundas do que aquelas que teriam sido suficientes no início.

É por isso que o trecho central do poema continua sendo tão perturbador. Ele não fala apenas de invasão. Ele fala de progressão.


A progressão da permissividade.

A progressão da hesitação.

A progressão da omissão.


No contexto da gestão, essa progressão costuma aparecer disfarçada de prudência. A cautela excessiva diante de decisões difíceis frequentemente é interpretada como racionalidade estratégica. No entanto, quando a cautela se transforma em paralisia, ela deixa de ser prudência e passa a ser um risco.


Empresas que permanecem muito tempo observando sinais sem agir acabam ensinando algo ao ambiente ao seu redor.


Assim como no poema, o sistema aprende.


Concorrentes aprendem que não haverá reação rápida.

Problemas internos aprendem que podem crescer sem interrupção.

Ineficiências aprendem que podem se consolidar.

O silêncio organizacional também comunica.


Ele comunica limites de ação, limites de decisão e, principalmente, limites de coragem.


Talvez por isso o poema de Eduardo Alves da Costa continue sendo tão citado décadas depois de ter sido escrito. Ele descreve uma dinâmica que ultrapassa contextos políticos ou sociais específicos. Ele revela um padrão profundamente humano.


A tendência de esperar um pouco mais.

De adiar um pouco mais.

De tolerar um pouco mais.


Até que, em algum momento, já não exista espaço para reação.

Nas organizações, essa fronteira é particularmente sensível porque a diferença entre uma empresa que se adapta e uma empresa que entra em declínio raramente está na inteligência das pessoas envolvidas.


Na maioria das vezes, está no momento em que a decisão é tomada.

Organizações resilientes desenvolvem algo que vai além da capacidade analítica. Elas desenvolvem sensibilidade para sinais iniciais. Entendem que pequenas distorções carregam informações importantes sobre a trajetória futura do sistema.


Mais do que isso, cultivam a disposição de agir enquanto as mudanças ainda são pequenas.

Essa disposição exige algo que muitas estruturas corporativas tentam evitar, desconforto.


Decidir cedo significa interromper rotinas, questionar premissas e, muitas vezes, reconhecer que algo precisa ser ajustado antes que o problema se torne evidente para todos.

Mas é justamente nesse estágio que a gestão exerce sua função mais estratégica.


Não quando a crise já é visível.

Mas quando ela ainda é apenas um sinal.

O poema lembra que a perda da voz não acontece de repente. Ela é construída ao longo de uma sequência de silêncios.


Nas organizações, algo semelhante acontece com a capacidade de reagir.

Ela não desaparece em um único momento.

Ela se desgasta lentamente cada vez que um sinal é percebido, mas nenhuma decisão é tomada.

No final, quando a reação se torna necessária, a estrutura já perdeu a agilidade que teria permitido resolver o problema de forma simples.


E então surge a sensação de inevitabilidade.

Mas o inevitável raramente nasce de um único acontecimento.

Ele nasce de muitas oportunidades ignoradas.

Talvez seja justamente esse o alerta silencioso que o poema nos deixa.

Entre perceber o sinal e decidir agir existe um espaço pequeno.

Mas é dentro desse espaço que se decide o destino de muitas histórias.


Porque, no fim das contas, organizações não entram em crise apenas por causa dos problemas que enfrentam.


Elas entram em crise quando os sinais aparecem cedo, e ninguém decide fazer nada a respeito.



Nota de referência

COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski: poesia reunida. São Paulo: Geração Editorial, 2003. Poema frequentemente atribuído de forma equivocada ao poeta russo Vladimir Maiakóvski.



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marcelo bevilacqua rtevista eleve

*Marcelo Bevilacqua, Administrador de Empresas, MBA em Gestão de Estratégica de Negócios e Pós Graduado em Psicologia do Consumidor. Atua há mais de 20 anos como Consultor em Marketing Finance Business a frente da Atuar Consultoria e Marketing.

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