Qual a sensação de se sentir invisível?

Por Vagner Oliveira*


“Para conhecer o caráter de uma pessoa basta observar como ela trata a quem não tem nada a oferecer.” Hugo Alves Pereira



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A invisibilidade social está relacionada às pessoas que exercem profissões desprovidas de status, glamour, reconhecimento social e adequada remuneração.


Você já se perguntou qual a sensação de se sentir invisível? Para profissionais de diversas áreas, essa sensação se faz presente o tempo quase todo. Mesmo desempenhando funções essenciais, como varrer as ruas, sepultar pessoas ou coletar materiais recicláveis, muitos trabalhadores são simplesmente ignorados pela maioria das pessoas. Ou até mesmo humilhados.


Os catadores, por exemplo, são responsáveis por quase 90% do lixo reciclado no Brasil. Mas poucas pessoas lembram desse tipo de informação quando se fala nesses trabalhadores.


Da mesma forma, imagine por um momento o caos que ficaria a cidade sem os serviços prestados por garis, faxineiros, sepultadores, porteiros e tantos outros profissionais que parecem invisíveis para muitos.


Assim, os trabalhadores que executam tarefas imprescindíveis à sociedade moderna, mas assumidas como de categoria inferior pelos mais variados motivos, geralmente não são nem percebidos como seres humanos, e sim apenas como “elementos” que realizam trabalhos a que um membro das classes superiores jamais se submeteria. Em consequência, o que não é reconhecido não é visto.


As profissões cujos elementos carregam este estigma da Invisibilidade Social, tais como lixeiros, garis, faxineiras, seguranças, frentistas, garçons, cobradores de ônibus, e outras de caráter operacional.

Estes são vistos como inferiores pela sociedade em geral, apesar de sua importância econômica.

Além de tudo o que já passam durante os seus exercícios profissionais, são tratados de forma humilhante por muitas pessoas que acreditam serem melhores pessoas por terem uma outra profissão, nem sequer cumprimentam essas pessoas, agradecem, conversam com elas...


Não adianta ter mestrado ou doutorado e não cumprimentar o porteiro, não tratar bem o garçom, o trocador do ônibus, e não ser gentil com as pessoas. Não adianta nem ser formado se não for educado.” Mallone Alves

Se você está desiludido e acha que sua profissão não é valorizada é porque provavelmente nunca havia pensado sobre algumas carreiras citadas acima. Quase ninguém nota que elas existem. O que é me conforta é saber que esses profissionais são muito satisfeitos com seus trabalhos, mesmo que não chamem tanto a atenção como outras profissões. A diferença é que eles geralmente são mencionados quando algo dá errado (basta se lembrar da última vez em que você ouviu falar em um intérprete).


Tem uma coisa bem interessante acontecendo neste momento. O sistema capitalista impõe uma visão de mundo em que as profissões subalternas valem menos, ganham menos e são invisíveis. Mas, repare a inversão desses valores neste momento de pandemia da Covid-19, causada pelo violento coronavírus!


Os/as caixas dos supermercados, garis, motoristas, os auxiliares de limpeza dos hospitais, os técnicos e teleoperadores de Telecom, os balconistas das farmácias, os frentistas dos postos de combustíveis, entregadores de aplicativos, entre outras funções ocupadas por trabalhadores/as pouco escolarizados alcançaram uma importância e são imprescindíveis?


O isolamento social, exigidos como única forma de combate à pandemia, expôs a importância dessas profissões que mantém o abastecimento de alimentos e remédios, o transporte, a conexão da internet, celular, TV tão necessária na comunicação dos grupos sociais. Os teleoperadores é que conectam a população com a Polícia, o Samu, os Bombeiros. Estes profissionais, além dos baixos salários, de condições precárias, são os que se arriscam para garantir a vida de outros que são os considerados.


Se fizermos uma lista das profissões relevantes na atual situação, estarão de fora os que sempre foram valorizados, bajulados pela mídia, pelo mercado, imprescindíveis ao capital: gestores, consultores, administradores, investidores, banqueiros. Todos altamente bem remunerados.

É que, até então, a regra básica é: quanto mais útil é o trabalho, pior ele é pago. Porém até quando? Vai continuar assim quando a economia voltar ao que era antes da pandemia?


Os profissionais invisíveis têm muito a ensinar sobre autorrealização – satisfação que muitos pensavam que apenas a autopromoção conseguia proporcionar, e que a invisibilidade pode ser vista como um sinal de orgulho e de um bom trabalho.


Em relação à maior parte da classe trabalhadora, os profissionais invisíveis geralmente não são notados devido ao fluxo acelerado verificado nos grandes centros urbanos. Assim, o cidadão, sempre em estado de alerta referente a suas atividades diárias e horários apertados, dificilmente nota a pessoa que presta serviços essenciais à urbe.


Além de sua invisibilidade como prestadores de serviços, não são notados em relação às condições econômicas e materiais. Normalmente, no jogo das relações de poder referentes ao sistema econômico, ocorre também a sua diminuição como profissional e agente social.


Um dos principais problemas referentes aos trabalhadores invisíveis não ocorre somente por sua falta de notabilidade em um ambiente. A maior dificuldade da invisibilidade é o não atendimento de suas reivindicações como profissional perante às empresas. O ideal é que as companhias apresentem políticas de valorização destes trabalhadores por meio do reconhecimento financeiro, pessoal e acompanhamento de suas necessidades como prestadores de serviço remunerado.


Nenhum pai ou mãe incentiva seu filho a ser gari, faxineiro ou coveiro. Não tem a ver com o salário, mas com a simbologia. A invisibilidade é tão automatizada na sociedade que muitas vezes nem mesmo o ser invisível se dá conta de sua degradante situação. Se ele percebe, carece de armas para o combate. O invisível não tem voz, seu discurso não é levado em conta, sua opinião sobre o mundo não importa. Ele aparece apenas como ferramenta.


Estamos a todo o tempo próximo a estas pessoas e precisamos urgentemente valorizar sua contribuição para com a sociedade. É necessária a identificação de suas identidades e perceber que são peças importantes na construção das classes econômicas.


Respeito ao ser humano, independentemente de sua condição social é uma relação para qual devemos estar atentos e colocar em prática.


Ser IGNORADO é uma das piores sensações que existem na vida! Não esqueça de cumprimentar, no mínimo, as pessoas ao seu redor, faça um grande diferença na vida dessas pessoas.



*Vagner Oliveira - Advogado

Especialista em Direito Homoafetivo

Pós-Graduado em Processo Civil

Instagram: @eu.vagner

Contato: advogadovagner@hotmail.com