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NATASHA CARDOSO: Ocupar espaços para abrir caminhos

  • há 1 hora
  • 7 min de leitura

Por Fabiano Biazon


Da periferia à conquista de um título internacional, da enfermagem à defesa de direitos e aos espaços de liderança, Natasha Cardoso construiu uma trajetória atravessada por desafios, educação e reinvenção. Hoje, na direção do MUT Brasil, ela defende que representatividade precisa avançar da visibilidade para o protagonismo e para a criação de oportunidades concretas.


Natasha Cardoso. Foto: Divulgação MUT.
Natasha Cardoso. Foto: Divulgação MUT.

Há histórias que podem ser contadas a partir das conquistas. Outras só podem ser compreendidas quando se olha para tudo o que veio antes delas. Antes dos títulos, das coroas, da atuação profissional e dos espaços de liderança, a trajetória de Natasha Cardoso começou na periferia, em uma família com duas irmãs, sendo ela a primogênita.


Ainda na infância, nos anos 1990, já se reconhecia em sua identidade de gênero. Ser uma criança trans naquele período significou conviver cedo com o bullying e o preconceito. Aos 16 anos, quando iniciou sua transição de gênero, enfrentou uma ruptura ainda mais profunda: o abandono familiar e a realidade das ruas. Em meio às violências e violações que atravessaram esse período, Natasha encontrou na educação uma possibilidade de reconstrução.


O ambiente acadêmico também não esteve livre de hostilidades, mas ela seguiu conciliando trabalho, estudos e sobrevivência até conquistar sua formação profissional. Hoje, sua trajetória se desenvolve em diferentes frentes. Na enfermagem, encontrou no cuidado uma profissão. Nos concursos de beleza, transformou imagem e voz em instrumentos de visibilidade. E segue ampliando sua formação, atualmente em fase de conclusão da Graduação em Gerência em Saúde.


Essa combinação entre experiência pessoal, educação e atuação profissional ajuda a compreender o caminho que Natasha passaria a construir também no campo dos direitos. Quando a experiência se transforma em ação Ao longo de sua trajetória, Natasha passou a utilizar os concursos de beleza como espaços para ampliar a visibilidade das mulheres trans e promover a equidade social. Paralelamente, sua experiência profissional na enfermagem colocou diante dela outra questão: as condições de acesso da população LGBTQIAPN+, especialmente mulheres trans e travestis, aos serviços de saúde. Foi dessa percepção que surgiu uma das iniciativas que considera mais significativas de sua atuação. Em 2022, desenvolveu um projeto de


Acesso Centralizado na Atenção Básica à Saúde, posteriormente reconhecido entre as experiências exitosas apresentadas na Mostra Teu SUS, do COSEMS-RS. Para Natasha, a possibilidade de transformar uma ideia em uma iniciativa com impacto concreto na saúde pública tornou-se um marco de sua trajetória. “Ter a oportunidade de tirar essa iniciativa do papel e testemunhar, na prática, o seu impacto real e efetivo na melhoria da saúde pública foi uma experiência transformadora, que reforça o meu compromisso com um sistema de saúde mais justo e acessível.”


Ao analisar o cenário atual, ela reconhece avanços nas políticas públicas de saúde direcionadas à população LGBTQIA+, mas aponta que a existência dessas políticas precisa ser acompanhada pela construção efetiva de vínculos entre os serviços e a comunidade.


“Acredito que as políticas de saúde pública voltadas para a população LGBTQIA+ no Brasil estão em pleno desenvolvimento e em constante expansão. No entanto, para consolidarmos esses avanços, o grande desafio atual é estreitar o vínculo entre o serviço e a comunidade.”

Para ela, não basta que uma política exista formalmente. É necessário criar estratégias de promoção da saúde capazes de aproximar as pessoas das unidades e transformar esses ambientes em espaços nos quais a população LGBTQIA+ se reconheça.


“Precisamos transformar as unidades de saúde em espaços em que as pessoas LGBTQIA+ não apenas tenham acesso ao sistema de saúde, mas sintam-se verdadeiramente acolhidas e pertencentes a esses locais.” 2022: o divisor de águas, mesmo ano que marcou sua atuação na saúde também representou uma transformação em outra dimensão de sua vida.


Crédito: (divulgação MUT Brasil)
Crédito: (divulgação MUT Brasil)

Depois de participar de edições anteriores do Miss Brasil Trans sem conquistar o título, Natasha decidiu rever seus objetivos. “Decidi recalibrar minha rota. Busquei rever o que eu realmente gostaria de deixar como legado e, a partir dessa virada de chave, tudo começou a dar certo.”


Vieram, então, três conquistas: Miss Trans Global Rio Grande do Sul, Miss Trans Global Brasil e, posteriormente, a coroa internacional do Miss Trans Global, em competição sediada em Londres. A dimensão mais importante daquela experiência, no entanto, não estava apenas no resultado.


“O Miss Trans Global foi o verdadeiro divisor de águas na minha vida.”

Para Natasha, aquele processo ajudou a redefinir sua própria compreensão sobre o significado de ocupar o lugar de uma Miss. A faixa e a coroa poderiam representar algo maior quando associadas à comunicação, à representatividade e à atuação social. “Mais do que títulos, meu objetivo foi redefinir o papel de uma Miss na sociedade.”


A conquista fortaleceu sua autoestima e, ao mesmo tempo, sua convicção sobre a importância da presença de mulheres trans em diferentes espaços sociais. “A beleza é plural e única, e todas nós podemos ser instrumentos de comunicação e apoio na construção de uma sociedade mais justa e igualitária.”


Das próprias violações à defesa de direitos Outro capítulo dessa trajetória levou Natasha a um espaço institucional de proteção de crianças e adolescentes. Ao se tornar a primeira mulher trans eleita para o Conselho Tutelar na Região Sul do Brasil, ela encontrou uma maneira de ressignificar experiências vividas durante a própria infância e adolescência. “Tive a possibilidade de transformar minhas próprias dores e violações durante a infância e adolescência em força e possibilidade de atuar pelos direitos de crianças e adolescentes por meio do Estatuto da Criança e do Adolescente.”


A ocupação desse espaço conecta duas dimensões presentes em sua história: a experiência individual e a possibilidade de transformá-la em atuação coletiva. É uma relação que também aparece quando Natasha fala sobre saúde, educação e representatividade. Para ela, conquistas individuais possuem importância, mas ganham outra dimensão quando conseguem produzir algum impacto para além de quem as alcançou.


Representatividade também é estar onde as decisões acontecem Essa compreensão ajuda a explicar sua relação com o MUT Brasil. Natasha acompanhou a proposta desde o projeto piloto, idealizado por Mateus e Fabiano, e afirma que foi na experiência cotidiana dentro da organização que passou a compreender a dimensão que o projeto poderia alcançar. “O MUT transformou a minha trajetória.”


Hoje, integrando a direção da organização e participando diretamente da construção de suas iniciativas, ela ocupa uma posição que desloca a ideia de representatividade para outro lugar: não apenas estar diante do público, mas participar das decisões e da construção dos projetos. “Como mulher trans na direção dessa organização, minha presença é a prova viva de validação profissional e de confiança mútua.” Para Natasha, a atuação do MUT deve estar conectada a pilares que ultrapassam o universo de um concurso de beleza. “Juntos, trabalhamos para que o MUT consolide seus principais pilares, educação, saúde, arte, tecnologia e trabalho. Transformando realidades em prol da comunidade de pessoas travestis e transexuais.”


O que existe além da coroa É justamente nesse ponto que Natasha propõe uma reflexão sobre o próprio significado dos concursos de beleza na contemporaneidade. “Os concursos de beleza contemporâneos precisam deixar de ser apenas vitrines de estética para se tornarem plataformas de impacto social e amplificação de voz.”


Quando se trata de grupos historicamente marginalizados, ela considera essa mudança ainda mais necessária. Conhecer e apresentar a história de uma candidata deixa de ser apenas um recurso narrativo de espetáculo e passa a representar reconhecimento. “Entender a narrativa de cada candidata não é apenas uma escolha de roteiro para o show, mas um ato de validação identitária.” Na sua leitura, essa atuação pode ser organizada em três pilares: humanização e quebra de estereótipos; desenvolvimento social e empoderamento; e o legado além da coroa.


É dentro dessa perspectiva que o MUT Brasil vem ampliando suas frentes para iniciativas que dialogam com educação, audiovisual, formação artística e construção de narrativas. O objetivo deixa de estar concentrado apenas no momento em que uma candidata atravessa o palco. Passa também por aquilo que pode ser construído antes, durante e depois dele. De coadjuvante a protagonista da própria história Reality, Escola Artística, Anuário e outras iniciativas criam diferentes possibilidades de presença e desenvolvimento.


Mas existe uma questão que atravessa todas elas: quem tem o direito de contar essas histórias? Para Natasha, oferecer espaço para que mulheres trans apresentem suas próprias trajetórias modifica a posição historicamente reservada a essas pessoas dentro das narrativas. “O Miss Universo Trans Brasil tem o poder de dar vida à história de cada candidata.” E essa possibilidade, em sua visão, ultrapassa o concurso. “Mais do que um concurso, a organização abre as portas para a inclusão real, validando identidades e celebrando trajetórias únicas.” É nesse ponto que a história de Natasha se encontra com a proposta que hoje ela ajuda a construir.


Sua trajetória começou em um contexto de enfrentamento ao preconceito e passou pelo abandono, pelas ruas e pela resistência para permanecer estudando. Mais tarde, encontrou na educação uma ferramenta de transformação, na enfermagem uma profissão, nos concursos uma plataforma de visibilidade, na saúde pública uma possibilidade de atuação e, nos espaços institucionais e de liderança, novas formas de contribuir.


As dificuldades que antecederam suas conquistas ajudam a compreender por que, para Natasha, representatividade precisa produzir algo para além da imagem: pertencimento, acesso e oportunidade. Uma perspectiva que ela sintetiza ao falar sobre o espaço que o MUT Brasil busca construir para cada participante: “Aqui, cada participante recebe o espaço e o apoio necessários para deixar de ser coadjuvante e se tornar a verdadeira protagonista da sua própria história.”


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Especialista na gestão de carreiras de modelos para o mercado internacional, Fabiano Biazon acumula mais de duas décadas de experiência no segmento. Por mais de 10 anos, juntamente com Mateus Ahlert, liderou a conceituada agência Premier Models.  Foi responsável pela descoberta e preparação de centenas de modelos, como Léo Bruno, ex-empacotador de supermercado em Criciúma, que se tornou estrela de uma das campanhas da Louis Vuitton, e Daniela Sulzbacher, que modelou em Paris, Itália, Nova York e Tóquio. Durante a pandemia, adaptou os processos de construção de talentos para o formato on-line: da escolha inicial a preparação individual do casting.


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