Eu sobrevivi à COVID-19

Por Vagner Oliveira*


Google Imagens

“Morrer. Dormir. Dormir. Talvez sonhar.”

William Shakespeare em Hamlet.

Ato 3, cena 1.


O dia 12 de fevereiro de 2021 parecia como uma sexta-feira qualquer, aliás, não tão qualquer, visto que era início do carnaval 2021. Estávamos programados para viajar com dois amigos para Santa Catarina, com tudo pronto.


No entanto, havia alguns detalhes diferentes: a pandemia do coronavírus havia chegado ao Brasil, com o paciente zero diagnosticado em 25 de fevereiro em São Paulo, há mais de um ano e continuávamos na mesma, ou na pior, com diversas restrições, haviam decretado o fechamento dos parques e dos comércios não essenciais, bem como proibidas festas, com o objetivo de quarentena social e diminuir a aglomeração popular e dificultar a disseminação e, então, usaríamos aqueles dias de feriado para descansar.


Havia começado no final da tarde de quinta-feira uma sensação de corpo estranho na faringe, cansaço, ânsia de vômito, mas, por outro lado, tenho esses sintomas recorrentes, ainda mais que naquela semana havia voltado a malhar.


O esforço da musculação, mesmo com a redução que pedi, deixou-me um pouco mais fadigado e letárgico durante o resto do dia. Presumi que fosse o desgaste da semana de muito trabalho. Tomei um remédio e repousei.


Na manhã do dia seguinte, dia da viagem, acordei mal, uma onda de mal-estar tomou conta de mim, muita dor de cabeça, uma estranha impressão de perda iminente de consciência. Tentei suportar por algum tempo, até que finalmente marquei uma consulta ao meio-dia no hospital próximo a minha casa e foi solicitado o exame, o que fiz imediatamente, e receitado alguns remédios, mas apenas para dor e febre. Tive sudorese, ingeri líquidos, seguiram-se uma onda de cólicas e o quadro diarreico. Pensei comigo “Pronto! Tinha que ser hoje”, mas como viajaríamos no fim do dia, repousei e me senti melhor pra viajar...


Viajamos eu e Jonas, nem gosto de dirigir e acabei dirigindo mais da metade do caminho, pois estava me sentindo bem e tomando a medicação. Chegamos tarde em Santa, durante a noite, o desconforto na faringe progrediu rapidamente para uma dor de forte intensidade. Uma dor que nunca experimentara antes; a cada deglutição sentia o atrito entre todas as estruturas. Concomitantemente, houve congestão facial e tosses irritativas.


Já era sábado e ficaríamos até terça-feira em viagem. Neste dia a tarde, ao redor da piscina, ouvindo músicas, e tentando nos divertir, Jonas, sai de cena e vai ao quarto, quando vejo que o mesmo está vomitando e muito mal, ele não conseguia nem levantar da cama, o que me preocupou bastante.


Mesmo considerando que o meu quadro não era dos mais típicos para Covid-19, e que os sinais vitais estavam todos muito bons. No entanto, a noite recebo o exame por e-mail que estava com o vírus, eu chorei muito e já previa que aqueles sintomas dele, era o início da doença também.

Acabamos voltando antes da viagem e no próximo dia Jonas foi ao mesmo hospital e agendou o exame.


Passei a entender a evolução muito atípica desta infecção respiratória, o mal-estar, a sudorese eram a viremia do corona! Mandei mensagem para todas as pessoas com quem tive contato e que eu ainda me lembrava, desde dois dias antes do início dos sintomas. Logo pesou-me na consciência o risco de ter contaminado alguém de forma inconsciente durante a fase assintomática e a culpa de ver Jonas naquele estado, apesar de não saber se fui eu que havia pegado ou ele e aonde foi, mas naquele momento nada adiantava saber e sim se cuidar.


Jonas acabou positivando também e ficando super mal. Nossas famílias ficaram preocupadas, ficamos isolados há mais de 10 dias, um doente cuidando de outro, só tínhamos vontade de dormir, chorar, sem sentir cheiro, gosto e o medo de morrer.


Ficava o dia todo com tonturas, enjoo, gosto ruim na boca, cefaleia, dificuldade em concentração... O tempo não importava para mim, procurava sempre ficar deitado, era a posição que me sentia menos desconfortável, e dormir, dormir. Apesar de ter que resolver a vida de muitas pessoas como Advogado, que não podiam esperar, e não havia ninguém para me substituir.


Não conseguia ingerir sequer sucos nem frutas, olhava na internet fotos de comidas para ver se alguma me atraía, nada! O emagrecimento cada vez maior e me batendo um quadro de ansiedade e depressão. Para ficar mais confortável, passei a dormir com três travesseiros. Confesso que com o risco de agravamento dos sintomas respiratórios, comprei e fazia tudo que me indicavam, cada pouco controlava a febre e o oxigênio no corpo.


O quadro de tonturas, náuseas e cefaleia me acompanharam até dois dias antes do término do meu isolamento. Dos sintomas mais comuns do Covid-19, acho que apresentei todos.

Eu fiquei com uma fobia social, tinha medo de ver pessoas que amavam, Jonas voltou ao trabalho e continuei em casa em home office, sozinho, ainda indisposto. Porém, sai às ruas e precisava me sentir vivo, fui caminhar com meu cachorro.


Confesso que foi bem sofrido; as pernas não aguentaram tantos esforços e doeram dos quadris aos tornozelos e pés. Mas eu não sibilei! Voltar a sentir o sol e o vento na cara foi ótimo. Conseguir apreciar as árvores frutíferas durante o percurso! Eu pude me sentir um sobrevivente, pois apesar de ter 32 anos, meu quadro foi intenso e me deixou em alerta, além de ver Jonas naquela situação, não medi esforços para nos ver bem.


Entendi, muitas vezes, o motivo de pessoas morrerem, além de baixar a imunidade, um quadro de depressão que só lhe coloca mais pra baixo e não lhe dá garantias nenhuma de vida. Prometi algumas coisas nesse período, coisas que eu não dava tanto valor.


Durante o isolamento, me preocupei muito em proteger a minha família do contágio, mesmo tomando todos os cuidados recomendados e minha irmã que está grávida. Por isso, não visitei elas por muitos dias. Pude contar com a ajuda e o estímulo dos amigos e familiares, através de telefonemas, mensagens no whatsapp e videochamadas. A esperança e a fé também me fortaleceram muito no período de incertezas.


Através da imprensa, do whatsapp e e-mails, somos inundados diariamente sobre notícias de pessoas jovens, sem comorbidades aparentes, e de colegas da área da saúde que tiveram morte como desfecho. Todos os dias eu ficava sabendo de algum conhecido que havia morrido devido essa doença.


Apesar de enfrentarmos um inimigo cuja interação com o hospedeiro ainda é muito pouco conhecida. Temos todas as ferramentas para vencer esta batalha. Sabemos atualmente apenas os tratamentos de suporte, na esfera de controle de danos. Esforços do mundo inteiro estão sendo unidos para encontrar o tratamento padronizado e respaldado na ciência contra a infecção em curso, assim como a criação de vacinas. O que nos resta pouca alternativa no presente momento que não adotar uma tática de guerrilha com o mínimo contato/confrontamento possível. Façamos a nossa parte.


Ainda tenho muito medo e mudei muito minha visão dessa doença, não estou livre de nada, mas vou tentar evitar ao máximo ficar bem. Essa atual pandemia da Covid-19 nos deixa muitas dúvidas, perguntas e medo. Mas, o principal é o medo da morte. Quanta gente, nesse período, já perdeu bens materiais, dinheiro, negócios, etc. Mas a pior perda é a de pessoas. Pessoas que amamos, outras que nem conhecemos e apenas fazem parte das estatísticas epidemiológicas diárias. Muitas se foram, não pela Covid, mas sim, por outras doenças. E mesmo sem ser pela Covid, todo o processo teve de ser restrito, com máscaras, álcool em gel e sem abraços.


A verdade é que a vida é um baile e muitas vezes nos dá um verdadeiro baile. A vida nos alegra, nos entristece, nos abraça, nos empurra… A vida nos envolve, nos acalenta, nos surpreende! De repente a vida vem e tira da gente quem mais amamos e, ao mesmo tempo, dá vida a outras vidas.


A vida nos amedronta e nos dá coragem. Ela fortalece nossa Fé e nos enfraquece espiritualmente… Tudo acontece ao mesmo tempo e muito rápido. Por isso, dance no baile da sua vida da melhor maneira possível… Use sua coreografia preferida, porque a vida é simples, rápida e passageira para todos. Ela não requer requinte e sofisticação. Ela apenas quer ser vivida de acordo com sua essência e valores de uma forma significativa.


A vida quer que você viva sem disfarces, bailando no salão da sua existência, escrevendo os melhores capítulos no livro da sua história, já que as lembranças são eternas e a saudade é permanente em busca de momentos vividos. Na verdade, a gente cresce na alma, mas sempre seremos frágeis no amor.


E assim é a vida: um grande baile onde almas se encontram, se esbarram, se unem e se separam. Por isso, viver é ser cada um em sua essência adquirida com todas as adversidades, com as lágrimas derramadas, com as conquistas e derrotas. Mas, acima de tudo, viver é o maior presente de DEUS e vem embrulhado em papéis de brilhos de momentos.


CHEERS!



*Vagner Oliveira - Advogado

Especialista em Direito Homoafetivo

Pós-Graduado em Processo Civil

Instagram: @eu.vagner

Contato: advogadovagner@hotmail.com

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