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Depois da Quarta-Feira: A Coragem de Ser Quem Somos o Ano Inteiro

  • há 17 minutos
  • 4 min de leitura

Foto: Patrick Rodeghiero
Foto: Patrick Rodeghiero

O Carnaval sempre foi mais do que festa. É rito, é ruptura, é permissão. Durante alguns dias, as cidades se transformam e nós também. A fantasia deixa de ser disfarce e vira revelação. Aquilo que durante o ano inteiro é contido, medido e policiado, ganha brilho, purpurina e avenida. O Carnaval é, talvez, o único momento coletivo em que a sociedade diz: “SEJA”. 


No Carnaval do Rio de Janeiro, na grandiosidade da Carnaval de Salvador ou na energia pulsante do Carnaval de Recife e Olinda, ou aqui em Porto Alegre, o que se vê não é apenas música e dança. É diversidade em movimento. Corpos diferentes, vozes diferentes, histórias diferentes ocupando o mesmo espaço com orgulho. O Carnaval é a prova de que a pluralidade não ameaça — ela encanta. 


Mas há uma contradição silenciosa nessa festa da liberdade. Enquanto as ruas gritam “viva a diferença”, muitas pessoas ainda sussurram seus desejos. Quantos já me disseram: “Eu queria ter a tua coragem”? Quantos amigos, especialmente homens gays, confessam que gostariam de ser autênticos, mas têm medo do julgamento? Medo da família, do trabalho, dos olhares atravessados, das piadas disfarçadas de brincadeira, dos possíveis dates... 


É triste perceber que, mesmo em 2026, ainda exista vergonha de ser quem se é. 

O mais curioso — e doloroso — é que o próprio Carnaval deve muito de sua magia à comunidade LGBTQIA+. A estética exuberante, a teatralidade, o exagero assumido, a celebração do corpo, da arte e da emoção carregam a marca de gerações que encontraram na festa um espaço de resistência. Sem gays, sem pessoas trans, sem artistas que ousaram desafiar padrões, dificilmente o Carnaval teria essa explosão de criatividade que hoje o mundo admira. 


Basta olhar para a história das escolas de samba do Sambódromo da Marquês de Sapucaí. Grandes carnavalescos, figurinistas, coreógrafos e intérpretes ajudaram a construir um espetáculo que é referência mundial. Muitos deles enfrentaram preconceito fora da avenida, mas dentro dela transformaram dor em arte, exclusão em protagonismo. 


O Carnaval, em sua essência, é um ato político — ainda que vestido de lantejoulas. Ele afirma que o corpo pode ser livre, que o afeto pode ser público, que a identidade não precisa pedir licença. Quando um homem usa saia, quando uma mulher ocupa o tambor, quando alguém se monta e brilha sob o sol do bloco, há ali uma pequena revolução. 


E, no entanto, quantas dessas revoluções duram apenas quatro dias? 


O Carnaval, para mim, não é improviso. Eu invisto em fantasia, em maquiagem, estudo a história da festa, penso nos detalhes, mergulho na estética e na energia que ela carrega. Eu me divirto de verdade, sou feliz ali — mas quem me conhece sabe: eu sou assim o ano inteiro. A produção é extensão da minha personalidade, não um personagem temporário. Por trás de cada brilho e de cada escolha existe, sim, um posicionamento. Existe militância, existe afirmação, mas, acima de tudo, existe o desejo de inspirar. Se a minha liberdade incomoda alguns, que ela ao menos encoraje outros. Que ao me verem ocupando espaço com autenticidade, mais pessoas se permitam também viver com menos medo e mais verdade. 


Na quarta-feira de cinzas, muitos voltam para o armário simbólico. Guardam a maquiagem junto com as fantasias. Ajustam o tom de voz. Endireitam o jeito de andar. Reduzem o riso. É como se a liberdade tivesse prazo de validade. 


Talvez a verdadeira coragem não esteja apenas em desfilar na avenida, mas em sustentar a própria verdade na segunda-feira comum. Em entender que autenticidade não é performance, é permanência. Que personalidade não é exagero, é coerência consigo mesmo. 


Quando alguém me diz que gostaria de ter minha coragem, eu penso: coragem não é ausência de medo. É decisão. É escolher não se diminuir para caber no desconforto dos outros. É compreender que a opinião alheia não pode ser maior que a própria identidade. 


O Carnaval nos mostra, todos os anos, que o mundo não acaba quando alguém ousa ser diferente. Pelo contrário: ele fica mais bonito. Mais colorido. Mais humano. 


Se a festa mais celebrada do país se constrói sobre diversidade, por que ainda insistimos em viver o resto do ano em preto e branco? Por que a liberdade precisa de autorização coletiva? Por que ainda há vergonha onde deveria haver orgulho? 


Sem a ousadia de quem rompeu padrões, não haveria carros alegóricos monumentais, fantasias exuberantes, coreografias arrebatadoras. Sem a contribuição da comunidade LGBTQIA+, talvez o Carnaval fosse apenas um feriado. Foi a coragem de ser quem se é — muitas vezes à revelia — que transformou a festa em espetáculo, e o espetáculo em patrimônio cultural. 


O convite que o Carnaval nos faz não é apenas para dançar. É para refletir. Se conseguimos celebrar a diversidade na avenida, precisamos aprender a respeitá-la na vida cotidiana. Se admiramos a autenticidade no outro, precisamos permitir essa autenticidade em nós mesmos. 


Que a liberdade não termine na quarta-feira. Que a coragem não dependa de fantasia. Que cada um de nós possa viver o ano inteiro com a mesma intensidade com que vive o bloco. 


Porque, no fim das contas, o maior desfile não acontece no Sambódromo. Ele acontece dentro de cada pessoa que decide, finalmente, ser quem é. Comece a pensar nisso... 



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*Vagner Oliveira 

Advogado 

Especialista em Direito Homoafetivo 

Pós-Graduado em Processo Civil 

Instagram: @eu.vagner 

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