Você planeja o envelhecimento?

Por Luís Pissaia

O título do texto é uma pergunta óbvia, mas que possui um estigma tão potente, capaz de afastar as pessoas de um planejamento eficaz e seguro sobre o envelhecimento. Mesmo sem pretensão o tempo passa, os anos avançam e as marcas recobrem o nosso organismo. Todos nós sofremos com a ação do tempo, desde a planta que você ganhou no dia das mães, a poltrona do papai, o telhado do vizinho e o corpo humano.



O passar dos dias desgasta toda e qualquer estrutura, envelhecemos diariamente, lutamos minuto a minuto inconscientemente contra os mesmos fatores. A ideia de uma juventude eterna justifica a busca por procedimentos estéticos que retardam ou mascaram as linhas da vida, de forma que os traços indesejados sejam abolidos e apresentados ao mundo somente aqueles dignos de apreciação.


O envelhecimento populacional é uma crescente, começou bem antes dos anos 2000 e se justifica pelo aumento na expectativa de vida atrelada aos avanços da medicina e queda drástica nas taxas de natalidade, ambas observadas inicialmente nos países desenvolvidos e atualmente também naqueles em desenvolvimento.


Contudo, a grande questão é de que as nossas comunidades estão envelhecidas e mesmo assim não ocorre o planejamento para esta fase tão importante da vida. O envelhecer carrega o preconceito de uma sociedade que exclui o “velho”. O que você faz com o sofá velho? Com aquela camiseta de futebol rasgada? Você, e eu também, descartamos esses itens, direcionamos para algum ambiente fora do alcance do nosso olho. E infelizmente, a pessoa idosa é tratada da mesma forma.


Como mudar o padrão de exclusão e educar a sociedade? Diria que a resposta está nas pequenas ações que realizamos diariamente, dentre elas o saber envelhecer. O envelhecer é um projeto de vida, deve ser atentado como qualquer outro investimento que realizamos a médio e longo prazo, pode demorar em receber o lucro, mas um dia ele chega com juros. E não tem receita de bolo para conduzir um envelhecimento pleno, mas algumas dicas fazem a diferença.


A aprendizagem continua é a primeira delas, a cada nova experiência que vivenciamos, as células neuronais passam por uma reorganização e criam pontes entre si, desenvolvendo ainda mais as conexões entre memórias e novas informações. Para esse processo vale tudo, desenvolver o hábito da leitura, momentos de atenção plena e até mesmo o padrão do sono influência diretamente na absorção das informações coletadas durante o dia e o correto armazenamento cognitivo.




Em segundo momento, cito a atividade física como propulsão para um corpo turbinado para resistir às mudanças ocasionadas pelo envelhecer. E neste caso, o foco e a constância das atividades físicas fazem toda a diferença. Nada melhor do que um exercício para manter as conexões ajustadas, independentemente do nível de atividade que você desenvolva, os benefícios impactam na disposição do corpo, na elasticidade e resistência dos músculos e do sistema respiratório. A atividade física colabora até mesmo para o correto funcionamento do intestino, auxiliando os movimentos peristálticos na digestão e absorção dos nutrientes.


Ainda por fim, os relacionamentos saudáveis configuram como o terceiro pilar para o envelhecimento pleno. As relações são inerentes ao ser humano, vivemos e envelhecemos em sociedade, partilhando momentos, experiências e construindo aproximações ao longo de uma ou várias vidas. Quando cultivadas com zelo, as relações humanas produzem efeitos avassaladores no bem-estar do indivíduo, motivando-o ao desenvolvimento e autocuidado. Quando atrelamos os relacionamentos com o envelhecer humano, os benefícios multiplicam-se à medida que o grupo apoia e fortalece os seus, respeitando as individualidades e acolhendo a história de vida.


Em suma, envelhecer é exercitar o Ser diariamente para a vida. É um processo contínuo e ligado às próprias experiências da população, o que configura a individualidade de cada um. O planejamento não causa sofrimento ou tristeza por envelhecer, mas a consciência sobre o próprio corpo e a evolução do mesmo por entre as fases da vida.



Sobre o autor - *Enf. Me. Luís Felipe Pissaia  - COREN/RS 498541

Mestre e Doutorando em Ensino

Especialista em Gestão e Auditoria em Serviços da Saúde

Docente Universidade do Vale do Taquari - Univates 

Enfermeiro de Rel. Empresariais - Marketing e Relacionamento Unimed VTRP