Querido diário... - Por Vanessa Campos

A memória afetiva é tipo uma locomotiva, quando algo aciona a mesma é como um trem desgovernado, as lembranças vêm a tona, brotam sem nem ao menos a mente conseguir assimilar as mesmas.



Cá estamos... explico o que se passou comigo. Comprei um saquinho de lixo para cozinha, reciclável- ando me preocupando muito com a questão da sustentabilidade ambiental. Quando abri senti um cheiro diferente mas ok... não prestei muita atenção nele. Hoje fui repor o lixo e PÁ! Deu a liga! Senti um cheiro que me levou aos meus 12/13 anos de idade. Ao meu primeiro beijo. Ao meu diário. Nem sei qual das duas histórias conto para vocês primeiro.


Por que lembrei do meu diário?! Porque o saco de lixo tem o cheiro do perfume “ Stiletto” do Boticário. Meu Deus eu cheirei tanto esse perfume que não hoje não aguento a fragrância. Acontece que meu diário era um depósito de objetos e seus significados. Se o guri que eu achava bonito comia um picolé e jogava no chão o palito - eu ia até o chão, pegava, lavava, e o colava no diário. Se o guri que eu era apaixonada escrevia algo na folha e rasgava- eu ia lá, pegava um pedaço e colava. Tinha copo esmagado, papel de bala... de tudo. Certa vez, fui no jogo de vôlei e meu jogador favorito atirou a toalha (sim- toda suada) eu peguei... tava no diário óbvio! Enrolada num saco para permanecer original.


Meu diário era tão cheio de coisas que mal fechava. Nem precisava porque ele não saía do meu quarto.


E o cheiro ?!


Bom... beijei o guri esse (meu primeiro beijo de verdade) e descobri qual perfume ele usava. Peguei um algodão e enchi o mesmo com o tal cheiro, fui para dentro da diário obviamente.

Meu quarto “fedia” a tal fragrância... era uma loucura! Eu cheirava todos os dias aquele algodão cultivando uma paixonite que nunca aconteceu. Quase tive uma overdose olfativa.

Não sei que fim levou o meu diário... lembro dele perfeitamente. Escrevia e compartilhava cada instante da vida daquela época.


Ah... coisa bem boa esse tempo que já foi: a adolescência... pena que quando estamos nela não temos essa percepção. Que delícia... tantas descobertas, medos, incertezas... vivemos de frio na barriga! É um sofre daqui e dali... Saudades!


E o primeiro beijo?! Não esqueci que vou falar para vocês. Fui numa festa com a esperança de “ficar” com o guri que eu gostava- ele nem aí para a minha existência- na época eu não era muito popular, ele, por sua vez, só ficava com as meninas mais disputadas do momento. Ele passou por mim como se eu fosse invisível. Quem nunca se sentiu assim?! Fiquei jururu! Rejeitada e tal.


Daí um colega dele disse para não sei quem que queria ficar comigo. Eu nunca tinha beijado ninguém... nem selinho nem nada. Aceitei e fiquei num nervoso que só vendo. Nossa... foi horrível ! Péssimo! Estranho! Desajeitado! Acho que ele também não sabia muito beijar. Pensei: nossa se isso é beijar na boca tô fora! Hehehe


Ainda bem que as cosias mudam... hoje já não posso mais com o cheiro “aquele”- terei que achar outro saco sustentável. E os beijos... acredito que sejam a coisa mais mágica que pode acontecer quando existe o encaixe perfeito entre duas pessoas. Cada dupla constrói a sua dinâmica, ritmo e intimidade. Vejo que tem casais que “perdem” esse costume! Nãoooooo beijar é um ato sagrado! Se perder num beijo bom... ah que delícia que é!


Ainda vivo de cheiros e beijos ... sou uma eterna apaixonada!


Um beijo e até a próxima!


Psicóloga Vanessa Campos