A desigualdade e o vírus

Por Vagner Oliveira*


Hoje ao ligar a TV e assistir meu jornal diário, fiquei pensando, será que vai passar alguma notícia boa? Algo que me motive? Algo que tire o sorriso do meu rosto? Mas não, os assuntos só trazem desgraças: coronavírus, mortes, acidentes, temporais, enchentes, estiagem, corrupção... E já estamos indo para o 8° mês do ano, quem diria que 2020 seria assim? Eu nesse momento escrevo numa sala fechada, num bom computador, longe do frio e com comidas a disposição, e quem não tem esse “luxo”?


Google Imagens

Desigualdades sociais e raciais já existentes antes da pandemia agravam as condições de enfrentamento dos mais vulneráveis e os torna mais suscetíveis a contrair a doença. Com milhões de pessoas infectadas e milhões de mortes por COVID-19 em todo o planeta, o coronavírus se tornou, em poucos meses, a questão de saúde pública mais impactante do último século.


Quando alguém é infectado e adoece, o sistema público de saúde é a única alternativa, e em algumas cidades ele já está saturado para tratar casos graves. O ponto de partida já é desigual: o número de leitos de UTIs na rede pública, por 10 mil habitantes, é quase cinco vezes inferior ao da rede privada.



A tendência é que a crise provocada pela covid-19 acentue a desigualdade no Brasil, que já é um dos países mais desiguais do mundo. É fundamental adotar medidas de precaução, como a ampliação de hábitos básicos de higiene, e até providências mais restritivas, como a quarentena e o lockdown. Ademais, a condição financeira e socioeconômica que já existia em cada país antes da chegada da pandemia é um fator essencial para compreender o modo como o vírus se espalha e mata.


Além de comorbidades pré-existentes, a desigualdade monetária de diferentes populações dentro de cada país é uma circunstância que agrava os riscos de contrair a COVID-19. Assim, pessoas socialmente vulneráveis, são o principal alvo do novo coronavírus, no Brasil e em outros países do mundo. Pesquisas recentes demonstram que o vírus mata mais em cidades desigualmente sociais.


Penso em qual será o efeito da pandemia em quem não pode se dar ao luxo de passar os dias dentro de casa, trabalhando pela internet?!.

Desde que começaram as notícias sobre o alto grau de proliferação e contaminação do coronavírus, algumas coisas me chamaram muito a atenção. Como pessoa que faz parte do coletivo social, faço o que recomendam especialistas: lavar as mãos, evitar aglomerações – enfim, as medidas de saúde que a esta altura já estão amplamente divulgadas. Inclusive com fechamento do meu escritório há mais de 3 meses, trabalhando em casa e me adaptando a esse “novo normal”.


Aqui no Brasil, depois de cortes nos gastos públicos, assistimos aos campus das nossas universidades ficarem mais sujos. O primeiro impacto foi sob o pessoal terceirizado da limpeza. Formadas na maioria das vezes por trabalhadoras negras, as equipes que não foram demitidas sofreram a sobrecarga de dar conta da limpeza das universidades. O resultado disso, como o corte de verbas para a educação nos afetou, percebemos na ida ao banheiro. Eis que agora, enquanto a vacina não vem, a higiene pessoal e dos espaços públicos é a forma mais eficaz de combater a proliferação do vírus.



Ao mesmo tempo que sou totalmente avesso à instalação do estado de pânico, também penso nos efeitos desse vírus sobre as pessoas que não podem se dar ao luxo de passar os dias dentro de casa, trabalhando pela internet. Também penso sobre os efeitos do coronavírus sobre o comportamento social, uma reflexão que é sobre a cor e a classe social das mãos que fazem a limpeza. O isolamento deve significar que as pessoas infectadas fiquem distantes de outras pessoas, inclusive as que trabalham para elas, como as trabalhadoras domésticas.

Ainda ontem eu assistia a um programa de grande circulação na TV quando uma das pessoas infectadas falou: “o pior da quarentena é ter que cozinhar sua própria comida”. A outra afirmava que nunca havia se imaginado infectada com um vírus como esse. Ou seja, é como se fosse uma ousadia de vírus, que cego (assim como, em tese, a Justiça deveria ser) não tivesse respeitado as hierarquias sociais brasileiras jogando tudo de cabeça para baixo. O que esperavam?

Certamente, que a covid-19 fosse como a dengue, a zika e a chikungunya, doenças “de pobre”, uma vez que estas últimas estão ligadas a questões de saneamento básico.



Devemos confessar. Não é intrigante como, pelo menos dessa vez, não foi de início o pobre quem levou a pior? O primeiro caso de coronavírus veio de um cidadão brasileiro que estava a negócios na Itália. Ademais, temos Ministro Britânico que contraiu o vírus e essa semana o nosso Presidente da República, deixando claro que o vírus não escolhe raça, cor, religião, nem poder aquisitivo.



No Rio de Janeiro, foi por telefone que um empresário carioca recebeu a notícia do seu médico de que seu teste deu positivo para covid-19. O infectado estava numa churrascaria, cercado de amigos e da esposa, posteriormente infectada também. Embora a matéria afirme que os dois estivessem em isolamento, não contou a empregada, aparentemente única pessoa que está em convívio com o casal, e que agora trabalha de “luvas e máscaras”.



Ademais, a precarização das condições de trabalho da população negra, no Brasil e nos Estados Unidos, faz com que eles sejam a maioria nos serviços considerados essenciais, tais como motoristas de ônibus, entregadores delivery, funcionários de supermercados, de serviço de limpeza e enfermeiros.



Esses trabalhos e condições, muitas vezes, precarizadas, ampliam a chance de negros serem afetados pela COVID-19. No Brasil, as empregadas domésticas e diaristas, negras, em sua maioria, são mais afetadas, já que, além de se expor ao saírem para trabalhar e usarem transporte público, limpam ambientes como o banheiro, o que aumenta as chances de contaminação.



Uma das primeiras mortes registradas por COVID-19, no país, foi a de uma empregada doméstica negra, infectada pela patroa que havia acabado de retornar da Itália, um dos epicentros da doença no mundo. Entre 11 e 26 de abril, o número de negros mortos por COVID-19 foi cinco vezes superior ao de brancos. Na cidade de São Paulo, doença atinge mais áreas onde negros são maioria.



Hoje, além de ter se tornado o segundo país do mundo com o maior número de mortes, o Brasil assumiu a triste liderança no total de enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem mortos pela pandemia — ao menos 100, segundo dados do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen).

Até o fim de maio, o Brasil tinha registrado 15.620 casos de COVID-19 confirmados entre os profissionais da área, totalizando 107 mortes comprovadas pela doença. O Conselho Internacional de Enfermeiros (ICN) registrou, ao menos, 360 óbitos desses profissionais em todo o mundo. Isso faria do Brasil o responsável por um terço do número de falecimentos em todo o mundo.



Apesar de estarem em contato com pacientes contaminados, não é esperado que tais profissionais morram em grandes quantidades, já que existem protocolos de segurança e equipamentos de proteção essenciais para o trabalho deles.



Ricos e pobres estão sendo enterrados ao redor de todo o mundo. O momento atual traz a oportunidade de exercitar a solidariedade e se preocupar com o bem de todos, inclusive com os mais vulneráveis, aqueles que muito limparam sua casa e lhe fizeram sua comida. A lição que eu tiro, é que em relação à covid-19, somos todos iguais e estamos no mesmo barco, devendo terem os mesmos direitos e privilégios. Ou cada um faz a sua parte ou a gente não vai conseguir vencer essa guerra.


Juntos somos mais fortes!!!



*Vagner Oliveira - Advogado

Especialista em Direito Homoafetivo

Pós-Graduado em Processo Civil

Instagram: @eu.vagner

Contato: advogadovagner@hotmail.com


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